terça-feira, 30 de outubro de 2012

A casa.



''Há,desde a entrada um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão tem uma velha ferrugem e o trinco se encontra num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais,com suas palmas,tinhões e samambaias,que a mão filial,fiel a um gesto de infância,desfolha ao longo do haste.
É sempre quieta a casa materna,mesmo aos domingos,quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço,repetindo uma antiga amiga. Há um tradicional silêncio em suas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado,sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta,guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em preces,nos mesmo lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos,a se amarem e compreenderem mudamente. 
''A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. 
Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala,e como se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre de sua casa materna,a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade,enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais ainda mais unidas em torno à grande mesa,onda já agora vibram também vozes infantis''.


Trecho do texto : ''A Casa Materna - do grande Vinicius de Moraes''. 


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